A Princesa Laura na Terceira Margem na Amazônia
Evandro Brandão Barbosa
Escrito em 09/02/2009.
O Princesa Laura navega nos rios amazônicos,
levando e trazendo sonhos. Do seu convés e ao som ritmado do seu motor, a
beleza da floresta encanta os olhos e a mente dos seus passageiros. E se no mar
as ondas e o vento são desafios, nos rios são os bancos de área, o banzeiro, o redemoinho, os troncos de
árvores e a ventania.
No mar eu aprendi uma primeira lição: oferecer a proa do barco às grandes ondas, porque somente assim as ondas passam e o barco continua a navegar.
Aprendi também, como uma segunda lição, que o modo mais racional de conviver com os fortes ventos no mar é aprumar a embarcação para que a sua proa seja a primeira parte a receber o vento. Assim, o barco não se torna uma barreira contra o vento, evitando um naufrágio desnecessário. E ainda aprendi uma terceira lição para conviver com o mar: não devemos construir barcos que apresentem a parte não submersa com uma altura de maior dimensão que a sua largura – é uma violação aos princípios da Física, um convite ao naufrágio.
E,
mantendo os ouvidos sempre atentos, eu escutava o meu pai dizer que o mar é
sagrado, onde não é permitido fazer e nem falar promiscuidades; ele falava
também que os pescadores não devem reclamar da ausência dos peixes nas redes e
nos anzóis, porque eles nada colocaram no mar, não possuíam o direito de
reclamar. E vejo que nos rios amazônicos, os princípios são os mesmos.
A ventania causou o naufrágio do barco Princesa Laura na viagem do município de Barcelos para a capital Manaus, no Rio Negro, e, de contrapeso, destruiu os sonhos de garotas que ocupavam os seus camarotes. A Natureza tem o seu próprio modo de se comunicar. E para quem sabe interpretá-la, a Amazônia se revela, seja nos rios, nas florestas e na sua biodiversidade. A ventania deixou o estrago e a sociedade precisa tomar providências para regulamentar a navegação na Terceira Margem.
Hoje,
ao relembrar o naufrágio do barco Princesa Laura, ocorrido em setembro de 2004,
no Estado do Amazonas, reaprendo novas lições para continuar vivendo: o Rio é
Negro, o vento é forte, mas as lições apreendidas com o mar de água salgada
também servem para a navegação nesses mares de água doce que percorrem todas as Amazônias. Mesmo porque, os rios desaguam no mar. Os marujos que não aprenderam
as suas lições e, por isso, não respeitam as águas, comprometem a embarcação e
encerram os sonhos de muitas vidas.
Quem pensa na existência de apenas duas margens comete grande equívoco; nas margens direita e esquerda dos rios vivem os homens. A Terceira Margem é o próprio Rio, ele é quem é o protagonista de todo o cenário revelado pela Natureza. Nem tudo o que é possível nas duas primeiras margens, é possível na Terceira Margem; seja no mar, seja nos rios.
Nas duas primeiras margens alguns homens têm poder. A Terceira Margem é o Imperador, como disse o autor Guttemberg Fernandes no seu livro "No Império da Boiúna", que nada tem a ver com a Cobra Grande. A Boiúna alí é o rio Amazonas, o grande imperador da Região; é ele quem para a vida do povo que habita as várzeas amazônicas durante 5 ou seis meses, com sua enchente anual, . A Terceira Margem, portanto, é o rio Negro e também o rio Amazonas; a Terceira Margem é quem manda e desmanda, ela impera. Na Amazônia, portanto, "O rio comanda a vida" como escreveu o autor Leandro Tocantins, mas também comanda a morte quando quer.
Meus pêsames aos familiares das vítimas!
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